Informação Geral
Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo  
Ver Mapa
Visita Virtual
  • Nome: Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo
  • Tipologia: Mosteiro
  • Classificação: Monumento Nacional (Igreja e túmulos) e Imóvel de Interesse Público (Mosteiro), pelo Dec. n.º 129/77, DR, 1.ª série, n.º 226 de 29 setembro de 1977.
  • Concelho: Marco de Canaveses
  • Dia do Orago: Santa Maria - 15 de agosto 
  • Horário do Culto: Domingo - 11h00 
  • Horário da Visita: Por marcação   
  • Serviços de apoio:
  • Telefone : 255 810 706 / 918 116 488   
  • Fax: 255 810 709   
  • E-Mail: rotadoromanico@valsousa.pt    
  • Web: www.rotadoromanico.com   
  • Localização:
    Avenida do Mosteiro, freguesia de Vila Boa do Bispo, concelho do Marco de Canaveses, distrito do Porto.
  • Como Chegar:

    Se vem do Norte de Portugal através da A28 (Porto), da A3 (Porto), da A24 (Chaves/Viseu), da A7 (Póvoa de Varzim) ou da A11 (Esposende/Marco de Canaveses) siga na direção da A4 (Bragança/Matosinhos) e saia para Penafiel/Lousada. Tome a direção de Penafiel e depois siga a sinalização da Igreja de Abragão. Em Abragão, rume a Vila Boa do Bispo, cruzando o rio Tâmega.

     

    A partir do Porto opte pela A4 (Vila Real). Saia em Penafiel/Lousada e siga na direção de Penafiel e depois na de Abragão. Continue até Vila Boa do Bispo.

     

    Se vem do Centro ou Sul de Portugal pela A1 (Porto) ou pela A29 (V.N. Gaia) opte pela A41 CREP (Vila Real). Escolha depois a A4 (Vila Real) e saia no nó de Penafiel/Lousada. Siga na direção de Penafiel e depois na de Abragão. Continue até Vila Boa do Bispo.

     

    Se já se encontra na cidade do Marco de Canaveses, tome a direção de Vila Boa do Bispo / Alpendorada pela estrada N210.

  • Coordenadas Geográficas: 41° 7' 49.40" N / 8° 13' 13.79" O 
História
História
Ouvir
Mosteiro de Vila Boa do Bispo (Fotografia: © SIPA – IHRU)Referido na documentação dos séculos XI e XII como Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa, este cenóbio estava já ligado aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho em meados do século XII.

Segundo a tradição, a casa monacal foi fundada entre 990 e 1022, por D. Sisnando, bispo do Porto (entre 1049 e 1085) e irmão de D. Monio Viegas, no lugar onde terá decorrido a legendária batalha entre cristãos e muçulmanos, como refere a Crónica dos cónegos agostinianos.

Desde as suas origens que este Mosteiro se liga à linhagem dos Gascos de Ribadouro, família nobre que alcançou grande influência na época. Senhores de um grande número de mosteiros estrategicamente posicionados ao longo dos afluentes do Douro, em ambas as margens e nos percursos da Reconquista, estes senhores controlavam assim uma ampla área geográfica a norte e a sul desse rio.

De aludir que o território em causa apresentava condições favoráveis à vida monástica: acidentado, era pouco frequentado por viajantes e fora recentemente arroteado e repovoado por uma população que, nos séculos seguintes, se mostrou bem enraizada.

Durante algum tempo, identificam-se membros da estirpe dos Gascos, diretos descendentes deles, na posse de haveres em Vila Boa do Bispo ou no território da atual freguesia.

A sua importância foi tal que chegou a receber carta de couto de D. Afonso Henriques em 1141 e foram-lhe concedidos privilégios especiais pelos pontífices da época: os priores do Mosteiro podiam usar mitra (Breve de Lúcio II, 1144) e receberam a distinção do uso do báculo (Bula de Anastácio IV, 1153).

Nos séculos XIII e XIV era Vila Boa do Bispo um dos mais ricos e poderosos Mosteiros da região. No século XVI passou para a gestão dos Comendadores e na centúria seguinte as Crónicas enalteciam de forma laudatória a importância da lenda que se liga à fundação desta casa monástica.

É, pois, neste contexto que a Igreja românica vestiu uma nova roupagem. Conforme indicam as várias cartelas estrategicamente colocadas no interior do edifício, as principais transformações ocorreram entre 1599 e 1686.

Na capela-mor respira-se barroco. O revestimento azulejar, em azul-cobalto sobre branco, nas paredes laterais conjuga a composição de figura avulsa no registo superior com uma elaborada composição de motivos florais em jarrões, ladeadas por figuras femininas híbridas, com cercadura de folhas contorcidas. O retábulo-mor foi composto dentro do gosto do barroco nacional.

Na nave impera a pintura de trompe-l’oeil, seja com marmoreados (porta da sacristia, púlpito e arco de sustentação do coro) ou com decoração cenográfica.

Na Capela do Santíssimo Sacramento abundam elementos arquitetónicos fingidos e a comum ornamentação floral com elementos brutescos ao gosto da celebração barroca.

Os retábulos colaterais, em estilo nacional, evocam o Santo Cristo e a Virgem do Rosário, e o lateral, na nave do lado esquerdo, a Virgem da Assunção.

Um extravagante varandim com balaustrada com falsos marmoreados, no lado esquerdo da nave, mostra uma base decorada com chinoiserie. É suportado por um atlante sobre uma meia-concha.

Destaque para o acervo de tumulária que subsiste, tanto no interior como no exterior da Igreja e que aponta para sepultamentos ao longo dos séculos XIII e XIV.
Personalidades Históricas
Ouvir

D. Júlio Geraldes
D. Júlio Geraldes foi corregedor de D. Fernando (r. 1367-1383) no Entre-Douro-e-Minho, como ele próprio mandou registar no seu epitáfio que está no Mosteiro de Vila Boa do Bispo.

Terá nascido em Favões (Marco de canaveses), onde viveu e instituiu o Morgado de Casa Nova.

Era irmão de Nicolau Martins (prior do Mosteiro de Vila Boa do Bispo) e de D. Afonso Martins (abade do Mosteiro de Alpendorada).

Surge ainda referenciado como corregedor do Entre-Douro-e-Tejo, em 1365, e da Beira, em 1365-1366.



Moninho Viegas, o Gasco
Moninho (ou Mónio) Viegas comandou a armada dos Gascões que, em data mediada entre os finais do século X e inícios do XI, libertou a cidade do Porto da ocupação moura.

Acompanharam-no no seu empreendimento, os seus irmãos D. Nonego e D. Sesnando, que depois foram bispos do Porto. Também se deveu a Moninho Viegas a conquista da terra de Santa Maria da Feira ao Mouros.

Este casou com D. Valida Tracozendes, filha de Truycozendo Guedes, fundador do Mosteiro de Paço de Sousa.

Moninho Viegas, trisavô de Egas Moniz, o Aio, foi pai cinco filhos: Egas, Garcia, Gomes, Godo e Fromarico Moniz.

Este Gascão, que se encontra sepultado no Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo, fundado segundo a tradição pelo seu irmão D. Sisnando, terá sido dos primeiros, com o auxílio dos seus irmãos, a dar início à restauração de Portugal contra os Mouros



D. Nicolau Martins
A atividade deste homem como prior do Mosteiro de Vila Boa do Bispo, da ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, está documentada entre 1316 a 1348.

Era irmão de D. Afonso Martins (abade do Mosteiro de Alpendorada) e de Júlio Geraldes (corregedor da comarca de Entre-Douro-e-Minho).
^
Terá morrido no ano de 1348, como se pode constatar pela inscrição do seu túmulo e, segundo Mário Jorge Barroca, o seu falecimento deveu-se à peste negra, que grassava no reino nesta época.

Primeiramente foi sepultado em sepultura singela e só em 1362 o seu irmão Júlio Geraldes encomendou o seu cenotáfio, para onde foi transladado.



D. Pedro Rabaldis
As origens familiares do 18.º Bispo do Porto entroncam fora do reino português. A acreditar na sua origem franca, a sua linhagem terá vindo para a Península Ibérica com D. Raimundo (1080-1107) ou com D. Henrique de Borgonha (1066-1112), fixando-se em Coimbra.

Presente no território coimbrão, entre 1102 e 1117, temos um nobre de seu nome Rabaldo, que foi vigário do conde D. Henrique na cidade de Coimbra (1109) e detentor de poder na terra de Lafões ao tempo de D. Teresa (1117). Terá casado, possivelmente, com uma senhora da terra de Lafões de quem teve sete filhos, com apelido Rabaldes: Álvaro, Elvira, Maria, Pedro, Rabaldo, Teresa e Urraca.

À semelhança de outras linhagens coimbrãs, assinala-se a sua presença em importantes cargos militares ou administrativos, como Álvaro e Rabaldo Rabaldes que foram cavaleiros régios de D. Afonso Henriques.

A influência social e militar desta estirpe alargou-se, também, à vida religiosa com Pedro Rabaldes, cónego, pelo menos desde 1135, e bispo do Porto entre 1138 e 1145, tendo sucedido no governo da diocese a D. João Peculiar, seu tio, segundo nos informa o Catálogo dos Bispos do Porto.

Segundo as Inquirições de 1258, a Sé do Porto tinha 4 casais em Negrelos, dois deles doados por D. Pedro Rabaldes.

De mencionar que deve-se a ele a mais antiga referência a um selo episcopal, datada de junho de 1144, num documento lavrado que autenticava uma composição sobre a Ordem do Templo.



Ribadouro, Família
Os Ribadouro são considerados uma das famílias mais importantes do Tâmega e Sousa no período medieval. Para percebermos a importância desta família é importante mencionar o parentesco destes antepassados com D. Sisnando, bispo do Porto, que, segundo a tradição, terá sido sepultado no Mosteiro de Vila Boa do Bispo, no Marco de Canaveses.

A documentação comprova a sua vontade em adquirir poderes através dos mosteiros da região, que haviam sido fundados por humildes monges ou por comunidades de homens livres, e dos quais se apropriaram com o objetivo de fortalecerem os seus poderes civis e militares.

Alguns mosteiros foram fundados pelos seus antepassados, como é o caso do Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, em Penafiel. De outro património religioso apoderam-se por doação dos próprios monges. Também pretenderam tornar-se patronos do Mosteiro de Soalhães, mas a comunidade, protegida por homens livres do lugar, não deixou que tal acontecesse.

Já em meados do século XII, Egas Moniz, o Aio de D. Afonso Henriques, juntamente com a sua segunda mulher, D. Teresa Afonso, fundou o Mosteiro de Tuías, também na margem esquerda do Tâmega.

Dotados de uma enorme capacidade de expansão, os Ribadouro interessaram-se pelo território a sul das margens do Douro. Aqui, um dos seus ramos aproxima-se do Mosteiro de Arouca. Alguns documentos atribuem a esta família a fundação do Mosteiro de Cárquere, no entanto, não será verdade. Já depois da morte de Egas Moniz, a sua viúva, D. Teresa Afonso, funda o Mosteiro de Salzedas.

Com esta rede de casas religiosas, que se localizam entre as margens do Sousa e das montanhas do Vouga até ao vale do Varosa, mas que tem a sua maior densidade entre Douro e Tâmega, era de esperar que as propriedades de domínio dos Ribadouro se situassem na mesma zona. Na verdade, os domínios de Egas Moniz, o Aio, transbordam desta área.

O senhor de Ribadouro terá tido inúmeras propriedades na serra de Montemuro, no concelho de Cinfães, nos declives do atual concelho de Resende, de Lamego e de Armamar, na vertente sul da serra de Montemuro, no concelho de Castro Daire, em Vila Nova de Paiva, na vertente leste da serra da Lapa ao descer para Moimenta da Beira, e em Sernancelhe, no vale do Távora.

As propriedades de Egas Moniz dispersaram-se devido às partilhas hereditárias. Os seus filhos deslocaram o centro da família para fora do Entre-Douro-Minho.



D. Sisnando
D. Sisnando, 15.º Bispo do Porto, governou a diocese entre os anos de 1049 a 1070. Era irmão de Moninho (ou Mónio) Viegas, o Gasco

Como é referido no Catálogo dos Bispos do Porto, D. Sisnando aceitou ser prelado da cidade portuense com o propósito de “ajuntar nella as ovelhas de Christo, a quem a fúria dos Mouros africanos tinha espalhado por varias partes” e, ao mesmo tempo, conseguir o necessário para a governação da sua igreja.

Segundo a tradição, quando já se encontrava recolhido no Mosteiro de Vila Boa do Bispo, que tinha sido fundado por seu irmão, fora surpreendido pelos mouros quando rezava missa e depois enterrado pelos monges na Ermida do Salvador, nos arredores de Vila do Bispo.

Quando D. Pedro Rabaldes, bispo do Porto (entre 1138 e 1145), ouviu falar dos milagres que se operavam junto da sepultura de D. Sisnando, visitou-a em 1142 e, perante o estado lastimoso em que se encontrava, mandou transferir o corpo de D. Sisnando para a Igreja de Vila Boa, colocando-o num túmulo alto e embutido na parede à direita de quem entra no templo.

Lendas e Curiosidades
Ouvir
O Mosteiro do Bispo Sisnando
Segundo as crónicas, foi a sensivelmente a cerca de uma légua do atual Mosteiro que o bispo D. Sisnando, há algum tempo recolhido no Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa, fundado por seu irmão, fora surpreendido pelos mouros numa ermida quando celebrava Missa.

Assassinado pelos infiéis, teria sido enterrado pelos monges do cenóbio debaixo do altar da capela em moimento de pedra.

Conforme nos narra frei Nicolau de Santa Maria e frei Timóteo dos Mártires, o bispo do Porto, D. Pedro Rabaldes, tendo ouvido falar dos milagres que se operavam junto da sepultura de D. Sisnando, visitou-a em 1142.

Perante o estado lastimoso da capela que encontrou, mandou transferir o corpo do bispo martirizado para Vila Boa. No entanto, foi graças às crónicas do século XVII que se começa a usar o epíteto de "do Bispo".
Cronologia
Ouvir

990-1022 - Segundo a tradição, foi fundado o Mosteiro de Vila Boa do Bispo por D. Sisnando, irmão de Monio Viegas;

1012 - Refere-se o Monasterio S. Mariae Villaebonae;

1022 - Data contida na inscrição funerária de D. Monio Viegas e de dois dos seus filhos, D. Egas Moniz e D. Gomes Moniz, gravada numa tampa de sarcófago no claustro do Mosteiro de Vila Boa do Bispo;

1120 - Documenta-se o Monasterium… de Villa Noua [sic] episcopi;

1141, fevereiro, 12 - O Mosteiro de Vila Boa do Bispo, ou mais concretamente, o prior D. Egas, seu irmão D. Monio e seus frades, receberam carta de couto outorgada por D. Afonso Henriques;

1142 - O bispo do Porto, D. Pedro Rabaldis (1138-1145) visita a capela onde D. Sisnando estaria sepultado, mandando posteriormente transferir o seu túmulo para o Mosteiro de Vila Boa [do Bispo];

1143 - Já há notícias da presença dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho em Vila Boa do Bispo;

1144 - Por Breve do Papa Lúcio II (1144-1145) foi feita mercê aos priores do Mosteiro de poderem usar mitra;

1153 - Por Bula do Papa Anastácio IV (1153-1154), os priores receberam ainda a distinção do uso do báculo;

Séculos XII-XIII - Cronologia dos testemunhos românicos remanescentes em Vila Boa do Bispo;

1297 - Papa Bonifácio VIII (1294-1303) fez expressa confirmação da Regra de Santo Agostinho no Mosteiro de Vila Boa do Bispo;

Século XIII - O Mosteiro de Vila Boa do Bispo detinha muitos casais e padroados em diversas freguesias da região;

Século XIV - Conceção do túmulo de D. Salvado Pires;

1320 - O Mosteiro de Vila Boa do Bispo surge taxado em 1500 libras;

1348, novembro, 25 - Inscrição gravada no túmulo de D. Nicolau Martins, prior do Mosteiro;

1362 - Os túmulos de D. Júrio Geraldes e de D. Nicolau Martins foram encomendados pelo primeiro, depois desta data, a uma mesma oficina;

1381, janeiro, 30 - Inscrição funerária gravada na secção lateral da tampa do túmulo de D. Júrio Geraldes, Corregedor de D. Fernando (1387-1383) no Entre-Douro-e-Minho;

1475 - Começa a apresentação de abades comendatários em Vila Boa do Bispo;

1593 - O Mosteiro de Vila Boa do Bispo é integrado na Congregação de Santa Cruz em Coimbra;

1599-1686 - Datas extremas das várias cartelas colocadas no interior do edifício e que testemunham a grande campanha de transformação deste durante a Época Moderna;

1605 - Aplicou-se reforma ao cenóbio de Vila Boa do Bispo;

Século XVII (2.ª metade) - Transformação da fábrica românica de Vila Boa do Bispo;

1650-60 - Campanha azulejar do batistério;

1686 - Possível edificação da sacristia, abrindo-se para o efeito uma porta de acesso na capela-mor, devidamente identificada sobre a ombreira;

Século XVIII (1.ª metade) - Com base nos elementos estilísticos, cronologia da intervenção de barroquização do interior da Igreja;

1727 - Data inscrita no lavatório da sacristia;

1740 - Campanha azulejar da capela-mor;

1758 - Conforme indiciam os dados facultados pelas Memórias Paroquiais, o edifício de Vila Boa do Bispo já apresentaria um aspeto idêntico ao que hoje conhecemos;

1882-1888 - Obras de apeamento e reconstrução da torre;

1886, novembro, 16 - Projeto das escadas interiores torneando as paredes da torre;

1977 - Classificação da Igreja (e túmulos) de Vila Boa do Bispo como Monumento Nacional e da área do antigo Mosteiro como Imóvel de Interesse Público;

1997 (depois de) - Reposição dos rebocos nos paramentos interiores e exteriores da Igreja;

2010 - O Mosteiro de Vila Boa do Bispo passa a integrar a Rota do Românico;

2012 - Intervenção de conservação da abóbada da capela-mor, pondo a descoberto a pintura mural seiscentista após a remoção dos caixotões existentes.

Especialidades
Arquitetura
Ouvir
A Igreja do Mosteiro de Vila Boa do Bispo tem planta longitudinal, de nave única, capela-mor profunda, com sacristia adossada a norte. Tem torre sineira quadrangular adossada a sul.

É na frontaria da Igreja que encontramos os elementos mais originais da época românica. Embora incompletas, as duas arcadas cegas que ladeiam o portal principal, totalmente transformado durante a Época Moderna, possuem duas arquivoltas, com aves e quadrúpedes esculpidos no perímetro das aduelas, cuja superfície foi cavada para relevar a figuração dos seus corpos, ficando um bordo contínuo sobre a esquina.

Planta do Mosteiro de Vila Boa do Bispo.Assim, nas duas faces das aduelas temos composições simétricas e antitéticas, com os animais a unirem a cabeça sobre a esquina da arcada. Na arcada interior os animais surgem afrontados, sobre um fundo de folhagens.

Não deixa de ser curioso o facto de os elementos românicos remanescentes no corpo da Igreja nos apontarem para uma cronologia mais tardia do que aquela que é sugerida pelos da fachada principal.

Falamos dos cachorros que ainda se conservam sob a cornija, na capela-mor, mas no lado oculto pelas estruturas monásticas remanescentes, e que têm um perfil quadrangular, sendo que um deles mostra um rosto a ocupar todo o espaço disponível. 

Na fachada lateral sul, as estreitas frestas que rasgam o paramento de granito, recentemente posto a descoberto, remetem-nos para uma medievalidade que não pode ser dissociada desta Igreja de Vila Boa do Bispo.

No interior ostentam um toro diédrico enquanto elemento decorativo que, juntamente com os vestígios de arcos quebrados que surgem em parte descobertos no interior da Igreja (por exemplo, sobre a porta de acesso à sacristia) confirmam a tese de que o século XVII “mascarou” a fábrica românica desta Igreja.

Além disso, deve-se colocar a hipótese de que também o seu interior seria ornado com arcadas cegas, o que reforça o lugar de destaque deste edifício no contexto da arquitetura portuguesa da época românica.

Mas é ao nível da fachada lateral sul da cabeceira que encontramos um dos mais curiosos vestígios românicos. A partir dos elementos visíveis pode-se afirmar que a primitiva capela-mor seria quadrangular, em abobada de pedra (conforme denunciam os contrafortes) e seria, também ela, ornamentada exteriormente por arcadas cegas.

Fragmentos de friso enxaquetado apontam ainda para essa cronologia românica. Porém, o mais significativo elemento é um capitel que ostenta o tema da sereia e que também encontramos representado num capitel do portal lateral norte do Mosteiro de Travanca (Amarante). De entre as entidades místicas, a sereia-peixe foi uma das mais representadas no nosso românico.
Recuperação e Valorização
Ouvir
As obras de recuperação e valorização deste Mosteiro encontram-se bem documentadas, como é o caso da Memória Justificativa datada de 21 de janeiro de 1882, que nos informa sobre a resolução de reconstrução da torre de Vila Boa do Bispo: “Por Portaria expedida pela Repartição d’Obras Publicas de 8 d’Agosto do anno findo, foi ordenado que a Direcção d’Obras Publicas do Districto do Porto mandasse proceder ao apeamento da torre da Igreja de Villa Boa do Bispo, no Concelho do Marco de Canavezes e depois á sua reconstrucção”. Uma opção tão radical justifica-se pelo grave estado de ruína em que se encontrava a torre.

Em resposta a um pedido do presidente da Junta da paróquia, foi enviado ao Engenheiro-Chefe da 5.ª Secção das Obras Públicas do Porto um “projecto das escadas interiores, de pedra torneando as paredes da torre” da Igreja de Vila Boa do Bispo. Data este projeto de novembro de 1886. No ano seguinte já decorriam as obras e eram feitas vistorias às mesmas. Prevendo-se que no dia 11 de junho desse ano ficasse a obra concluída, pois na véspera já se assentara parte da cornija, solicitou-se então para que do Porto se ordenasse “a construcção da cupula da mesma torre, antes que os pedreiros se retirem d’alli”. No mês seguinte, trabalhava-se assim ao nível dos remates das sineiras, embora a “pedra colocada como mostrador para o relogio (…) ainda não estivesse cortada”.

No entanto, a 24 de janeiro de 1888, o Paço informa diretamente o Diretor das Obras Públicas do Porto que sua Majestade, D. Luís I (1861-1889), ordenou que se suspendessem os trabalhos de reconstrução da torre da Igreja matriz de Vila Boa do Bispo, que aprovara anteriormente pelas Portarias de 8 de agosto de 1881 e 27 de setembro de 1883. Contribuindo, no entanto, com o subsídio de cento e sessenta mil réis, a conclusão das obras ficaria a cargo da própria freguesia. Atente-se, que já no ano anterior, o monarca contribuíra com quatrocentos mil réis “para as obras de reparação da sua Igreja Matriz”.

Dando o salto para o século XX, Lúcia Rosas dá-nos conta que foi durante a década de 1940 que se procedeu à colocação dos túmulos de D. Nicolau Martins e de D. Júlio Geraldes em arcossólios rasgados na parede da nave, do lado do Evangelho. Em 1946, a Comissão Fabriqueira trabalhava já “na acomodação dos túmulos de pedra que antigamente eram do claustro”. Dois anos depois tinham já sido gastos “9500$00 em obras da Igreja, incluindo a construção dos lóculos para acomodação dos dois túmulos”.

Só em 1955 é que voltamos a ter notícias relativas a Vila Boa do Bispo e estas prendem-se com a abertura do processo de classificação da Igreja como Monumento Nacional, incluindo os seus túmulos. Aproveitando a ocasião, depressa o padre Manuel de Oliveira Sousa Vales - à data pároco de Vila Boa do Bispo - contactou a Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), apelando para a realização de obras que considerava urgentes: a eletrificação total do interior, o arranjo da talha que reveste o arco cruzeiro e trabalhos ao nível do telhado.

Sendo por então a conservação do monumento da “exclusiva responsabilidade da Paróquia que usufrui a sua propriedade”, por não ter sido ainda aprovada a legislação que estabelecesse que “as obras mínimas de conservação de imóveis classificados, embora de propriedade particular, possam vir a ser custeadas pelo Estado sempre que seja devidamente comprovada a incapacidade financeira dos respetivos proprietário” a DGEMN não podendo comparticipar as mesmas, propôs-se “a prestar a assistência técnica às obras que venham a ser levadas a efeito pelo Pároco da Igreja de Vila Boa do Bispo”. Assim, o que pudemos perceber pela análise da documentação relativa a este monumento, a prioridade foi dada à “instalação eléctrica”.

Teremos de esperar pela década de 1990 para sentirmos da parte das instituições estatais responsáveis uma ativa intervenção neste monumento. Embora tenha sido realizada uma verificação do estado de conservação dos altares de talha dourada em setembro de 1990, pelo então Instituto Português do Património Cultural, seis anos mais tarde, técnicos do Centro de Conservação e Restauro do já Instituto Português do Património Arquitetónico e Arqueológico (IPPAR) realizaram uma inspeção ao imóvel em análise. Embora por então se tenha verificado a “existência de um numeroso espólio artístico, constituído por retábulos de talha dourada, azulejos, tecto e caixotões e um cadeiral, parte do qual a necessitar de intervenções ao nível da conservação e restauro”, a verdade é que se considerou importante a prévia realização de um estudo “da parte edificada, designadamente em relação à estabilidade das respectivas estruturas”.

Não nos podemos esquecer que a boa conservação do espólio integrado de um dado monumento depende necessariamente, além dos cuidados de limpeza e manutenção que são exigíveis, de preferência feitos por técnicos especializados e com profundos conhecimentos dos materiais utilizados e das variações a que estes estão sujeitos, da estabilidade e da conservação da estrutura arquitetónica que os abriga. Naturalmente que infiltrações ao nível da abóbada, como da capela-mor, iriam provocar graves danos na estrutura de caixotões que a oculta, danos esses que são, na maior parte dos casos silenciosos. Considera-se, pois, “óbvio que não é possível dissociar a intervenção no construído da intervenção nos elementos que lhe foram sendo adossados na passagem dos tempos”.

Em abril de 1991 estava já realizado um profundo “Diagnóstico sobre o estado de conservação e patologias do imóvel”, acompanhado por uma proposta prévia de intervenção para a conservação e beneficiação do imóvel. A verdade é que, embora as fontes documentais não o precisem, através da análise de diversas fontes fotográficas podemos aferir que, pelo menos ao nível do exterior, só depois de 2006 é que se realizaram obras de conservação. Assim, seguindo uma das propostas do documento de 1997, foi reposto o reboco (à base de cal e saibro) nos paramentos exteriores da Igreja, conferindo-lhe a roupagem que atualmente existe.

No ano de 2012 sofreu obras de conservação ao nível dos caixotões da capela-mor, que, ao serem apeados, deixaram à vista uma pintura mural setecentista com temas hagiográficos, pintura essa, entretanto limpa e consolidada. 
Galeria
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Capela-mor.

    JPG - 798Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Nave.

    JPG - 3264Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Capela-mor. Teto.

    JPG - 829Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Capela do Santíssimo Sacramento. Pintura mural.

    JPG - 674Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Nave.

    JPG - 665Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo [s.d] (Fotografia: © SIPA – IHRU)

    JPG - 233Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo [s.d] (Fotografia: © SIPA – IHRU)

    JPG - 206Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Capela do Santíssimo Sacramento. Pintura mural.

    JPG - 984Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Nave.

    JPG - 754Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Fachada sul. Túmulo.

    JPG - 764Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Detalhe da fachada ocidental.

    JPG - 799Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Fachada ocidental. Portal ocidental.

    JPG - 674Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Detalhe da fachada ocidental.

    JPG - 834Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Claustro.

    JPG - 910Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Fachadas ocidental e sul.

    JPG - 534Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Nave. Túmulo.

    JPG - 691Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Fachada ocidental.

    JPG - 580Kb

    Download»
  • +Mosteiro de Vila Boa do Bispo. Detalhe da fachada sul.

    JPG - 799Kb

    Download»
Saber mais
Bibliografia

[S.a.] - Galeria das ordens religiosas e militares, desde a mais remota antiguidade até nossos dias: Adornada com muitas estampas. Porto: Typographia na Rua Formosa, 1843.

AGUIAR, P. M. Vieira de - Descrição histórica, corográfica e folclórica de Marco de Canaveses. Porto: Oficina de S. José, 1947.

ALARCÃO, Jorge de – Coimbra: a montagem do cenário urbano. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2008.

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de - Arquitectura românica de Entre Douro e Minho. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1978. Tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de - História da arte em Portugal: o românico. Lisboa: Editorial Presença, 2001. ISBN 972-23-2827-1.

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de - História da arte em Portugal: o românico. Lisboa: Publicações Alfa, 1986.

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de; BARROCA, Mário - História da arte em Portugal: o gótico. Lisboa: Editorial Presença, 2002. ISBN 972-23-2841-7.

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de; LOPES, Carlos Alberto Almeida - Eja (Entre-os-Rios): a civitas e a Igreja de S. Miguel. Portugália. Vol. 2/3 (1981-1982).

ALMEIDA, Fortunato; PERES, Damião, dir. - História da Igreja em Portugal. Porto: Livraria Civilização, 1971.

BARROCA, Mário - Epigrafia medieval portuguesa: 862-1422. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

BARROCA, Mário - Necrópoles e sepulturas medievais de Entre-Douro-e-Minho: séculos V a XV. Porto: Universidade do Porto, 1987.

BARROS, João de - Colecção de manuscritos inéditos agora dados à estampa V: geographia d'entre Douro e Minho e Trás-os-Montes. Porto: Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1919.

BOTELHO, Maria Leonor; RESENDE, Nuno – Mosteiro de santa Maria de Vila Boa do Bispo: Marco de Canaveses. In ROSAS, Lúcia, coord. cient. – Rota do Românico. Lousada: Centro de Estudos do Românico e do Território, 2014. Vol. 2, p. 357-388.

BOTELHO, Maria Leonor - A historiografia da arquitectura da época românica em Portugal. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto,  2010. Tese de doutoramento em história da arte portuguesa apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2010a. Texto policopiado.

BOTELHO, Maria Leonor - Igreja de São Pedro de Rates. In PÉREZ GONZÁLEZ, José María - Arte românica em Portugal. Aguiar del Campoo: Fundación Santa Maria la Real – C.E.R./Fundación Rámon Areces, 2010b. p.  213-228.

BOTELHO, Maria Leonor - Sé de Braga. In PÉREZ GONZÁLEZ, José María - Arte românica em Portugal. Aguiar del Campoo: Fundación Santa Maria la Real – C.E.R/Fundación Rámon Areces, 2010c. p.  41-50.

CARDOSO, Jorge - Agiologio lusitano... Lisboa: na Officina Craesbeckiana, 1652.

CHOAY, Françoise - A alegoria do património. Lisboa: Edições 70, 2000. ISBN 9789724412740.

COSTA, A. Carvalho da - Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal... Lisboa: Off. de Valentim da Costa Deslandes, 1706.

CUNHA, Rodrigo da - Catalogo e historia dos bispos do Porto. Porto: João Rodriguez, 1623.

FERNANDES, A. de Almeida - Portugal primitivo medievo. [S.l.]: Associação de Defesa do Património Arouquense, 2001. ISBN 972-9474-25-7.

LORENTE FERNANDEZ, Ildefonso - Recuerdos de Liébana. Madrid: Maxtor, 1882. ISBN 9788497614924.

MATTOS, Armando de - A fachada da igreja românica de Vila Boa do Bispo. Douro-Litoral. n.º 2  (1948) 72-75.

MATTOSO, José - A nobreza medieval portuguesa: as correntes monásticas dos séculos XI e XII. Revista de História Económica e Social. N.º 10  (1982) 29-47.

MATTOSO, José - Obras completas: o monaquismo ibérico e Cluny. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002a.

MATTOSO, José - Obras completas: Portugal medieval: novas interpretações. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002b.

MONTEIRO, Maria Emília - Vila Boa do Bispo: tradição e mudança. Marco de Canaveses: Câmara Municipal, 1990.

MOREIRA, Domingos A. - Freguesias da diocese do Porto: elementos onomásticos alti-medievais. Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. Vol. 7-8 (1989-1990) 7-119.

MOREIRA, Manuel - [Memória Paroquial de] Vila Boa do Bispo [Manuscrito]. 1758. Acessível em ANTT, Lisboa. PT-TT-MPRQ/39/176.

PORTUGAL. Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território - IRHU/Arquivo ex-DGEMN/DREMN 1706/14. Igrejas do Bispado do Porto: concelhos de Lousada e Marco de Canaveses.

PORTUGAL. Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território - IRHU/Arquivo ex-DGEMN/DREMN - Processos vários. Nº IPA PT011307300016 [Em linha]. Disponível em WWW: <URL:http://www.monumentos.pt>.

RODRIGUES, José Carlos Meneses - Retábulos no Baixo Tâmega e no Vale do Sousa: séculos XVII-XIX. Porto: Universidade Porto,  2004.

ROSAS, Lúcia Maria Cardoso; SOTOMAYOR-PIZARRO, J. A. de - Território, senhores e património na Idade Média. In AGUIAR, Alexandre, coord. - Marco de Canaveses: perspectivas. Marco de Canaveses: Câmara Municipal do Marco de Canaveses, 2009. ISBN 978-972-95492-7-4. Vol.  1, p.  81-116.

SANTA MARIA, Nicolau de - Chronica da Ordem dos Conegos Regrantes do Patriarcha S. Agostinho. Lisboa: na Officina de Ioam da Costa, 1668.

SIMÕES, J. M. dos Santos - Azulejaria em Portugal no século XVII: tomo I – tipologia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1971.

SOTOMAYOR-PIZARRO, J. A. de - Linhagens medievais portuguesas: genealogias e estratégias: 1279-1325. Porto: Universidade do Porto, 1997.

SOUSA, Bernardo de Vasconcelos e, coord. - Ordens religiosas em Portugal: das origens a Trento: guia histórico. Lisboa: Livros Horizonte, 2005.

Downloads