A arte Românica é uma novidade e uma invenção da Idade Média, que surge em contraponto com o despojamento do período histórico imediatamente anterior, onde a escultura quase desaparecera, nomeadamente a figurativa, por ser associada à idolatria e ao paganismo. No Românico, as esculturas assumem formas distintas: encolhem, esticam, adaptando-se ao espaço. Cada recanto, cada pormenor é, por si só, uma descoberta, um prazer para os sentidos que, despertos pela beleza da arte que contemplam, nos transportam para outra dimensão.
A estabilidade política que se verifica a partir da segunda metade do século XI e início do século XII propicia o desenvolvimento da arte. É neste contexto que surge a arte do estilo Românico, a partir de dois fenómenos da época: o monaquismo, ou seja, a vida religiosa no isolamento do mundo, e o culto das relíquias e as peregrinações. Este representa, nesta altura, um verdadeiro motor da criação artística em resultado do intercâmbio e da partilha de conhecimento. O conceito de Românico desenvolve-se, assim, a partir de elementos religiosos, embora também possam ser encontrados factores de carácter profano, civil e militar de grande importância na afirmação deste estilo artístico.
As origens do Românico provêm das regiões da Borgonha, de Languedoc, do Auvergne e do Sudoeste francês, em finais da primeira metade do século XI. Este estilo artístico não se baseia em grandes princípios directores ou teorias elaboradas, preferindo deambular entre várias formas onde a diversidade impera.
O Românico em Portugal
O estilo arquitectónico Românico chega a Portugal através da Reconquista Cristã. A Península Ibérica está sob controlo dos árabes e a chegada de várias ordens religiosas e militares europeias influenciam a organização do território. Após a conquista de Coimbra, em 1064, o crescimento demográfico é notório, tal como uma mais densa ocupação do território e um habitat mais estruturado.
É durante o reinado de D. Afonso Henriques que a arquitectura românica mais se expande, nomeadamente através da construção das Sés de Lisboa, Coimbra e Porto, bem como o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. A natureza religiosa desta arquitectura implica um relacionamento estreito entre a organização eclesiástica diocesana e paroquial e os mosteiros das várias ordens monásticas. Não surpreende, assim, que os principais responsáveis pela encomenda de obras de arquitectura românica sejam os bispos das dioceses de Braga, Coimbra, Porto, Lamego, Viseu, Lisboa e Évora, bem como os priores e abades dos mosteiros.
O Românico concentra-se, sobretudo no Noroeste e Centro de Portugal, em resultado de uma malha muito densa de organização do território, baseada em dioceses e paróquias. A igreja é o ponto central da vida das comunidades rurais que se estruturam em seu redor. Daqui sobressai a importância de vivenciar a arquitectura Românica no seu enquadramento rural. Sem o largo em torno da igreja, as casas ali edificadas e os amplos espaços rurais que conferem um carácter muito especial a esta arquitectura, torna-se praticamente impossível apreciar a beleza deste estilo artístico em toda a sua plenitude.