Era descendente dos Ribadouro ou dos “Gascos”, uma importante família de Entre-Douro-e-Minho a quem foi confiada a educação do rei D. Afonso Henriques.
Este fidalgo, que fazia parte da primeira nobreza portuguesa, exerceu enorme influência durante o governo do conde D. Henrique, surgindo como uma das figuras principais da Corte, sendo mencionado em documentos oficiais desde o final do século XI.
Quando D. Henrique morre, o mestre Egas, como era também conhecido, foi um dos que se opôs à política de submissão ao rei de Leão levada a cabo por D. Teresa.
Durante a governação de D. Afonso Henriques a sua influência aumentou consideravelmente, tornando-se detentor de várias terras devido às doações feitas pelo primeiro rei de Portugal, como recompensa pelos serviços prestados.
Este ilustre nobre faleceu de morte natural a 3 de agosto de 1146, sendo sepultado no panteão da família dos Ribadouro - Capela do Corporal – contíguo ao Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa e posteriormente, no século XVII, o seu túmulo foi transladado para o interior do Mosteiro, onde ainda permanece.
Lendas sobre Egas Moniz
A vida de Egas Moniz esteve sempre envolta em lendas que se cruzam com a História de Portugal. Existem diversas lendas em que este nobre é figura central: sobre o nascimento de D. Afonso Henriques, a lenda de Cárquere, a do carvalho de Egas, a da Terra do Avô ou, por fim, sobre a própria fisiologia deste descendente dos Ribadouro.
A primeira das lendas foca-se no nascimento do filho dos condes D. Henrique e Dona Teresa. Egas Moniz sabendo do seu nascimento cavalgou à pressa para Guimarães para pedir aos condes que lhe dessem o seu filho para o educar. No entanto, D. Henrique e Dona Teresa não o queriam entregar aos cuidados do nobre fidalgo, porque Afonso tinha nascido com graves defeitos físicos. Mesmo assim, Egas Moniz quis criar o jovem infante, o que veio a suceder.
Passados cinco anos, quando Egas Moniz se encontrava a dormir, apareceu-lhe Nossa Senhora, em sonhos, que lhe pediu para ir a determinado lugar escavar uma igreja que tinha sido começada em honra dela e encontrar, também, uma sua imagem. Pediu-lhe que terminasse a igreja e, quando esta estivesse finalizada, deveria colocar o jovem infante no altar para que este ficasse curado. Respeitando o desejo de Nossa Senhora, imediatamente iniciou esta campanha, tendo feito como aquela mandara. No final, colocou Afonso no altar e o milagre aconteceu: este ficou curado dos problemas físicos com os quais tinha nascido.
Sobre este assunto existe uma outra lenda – a de Cárquere – que alude, novamente, aos problemas físicos de Afonso Henriques, em que este terá nascido corcunda e com grave deficiência numa perna, o que o impedia de aspirar à sucessão no Condado e tornar-se um destacado chefe militar, como tinha sido o conde D. Henrique, seu pai.
Perante este infortúnio, competiu a Egas Moniz exercitar o físico e formar o espírito do jovem infante. Sucede que, com o avançar do tempo, poucas melhoras se verificavam no estado de saúde de Afonso.
Esta lenda difere da referida anteriormente na circunstância em que Egas Moniz teve o sonho onde surge Nossa Senhora. Segundo esta, o fidalgo, ao regressar do sul após incursão contra os Mouros, apareceu-lhe em sonhos Nossa Senhora. Esta revelou-lhe o sítio exato onde se encontrava escondida uma imagem sua – naquela altura os cristãos escondiam as imagens sagradas para não serem vandalizadas pelos seus inimigos – e pediu-lhe para ali construir uma igreja em cujo altar devia colocar, por uma noite, o jovem Afonso Henriques. Egas Moniz tratou logo de construir a igreja e, uma vez concluída, colocou o futuro rei de Portugal no altar.
Conforme narra a lenda, depois de uma noite passada em vigília, Afonso Henriques ficou curado. Em agradecimento pelo milagre, Egas Moniz mandou acrescentar à igreja um mosteiro – o de Cárquere – ao qual fez diversas doações.
A tradição, provavelmente de origem nobiliárquica, criou em torno deste descendente dos Ribadouro a lenda mais conhecida sobre ele e que diz respeito ao não cumprimento de compromissos assumidos por D. Afonso Henriques ao rei de Leão. Após a morte do conde D. Henrique, a 24 de abril de 1112, D. Teresa ficou à frente do Condado Portucalense seguindo uma política de submissão a Afonso VII de Leão. Entre os que se opunham a esta política encontrava-se Egas Moniz e o jovem Afonso Henriques. Na tentativa de subtrair-se à autoridade do seu primo Afonso VII, o jovem Afonso Henriques entrou, por várias vezes, em confronto militar com o monarca leonês e numa dessas ocasiões, em 1127, o rei de Leão chega a fazer cerco a Guimarães.
Apesar das inevitáveis consequências deste ato militar - como a falta de alimentos e o cansaço -, Afonso Henriques recusava render-se. No entanto, aceitou que um grupo de nobres, onde constava Egas Moniz, negociasse a paz com seu primo. Nessa negociação, o referido nobre deu a sua palavra que Afonso Henriques honraria os compromissos assumidos, nomeadamente a sua submissão e obediência a Afonso VII.
Conforme nos narra a história, um ano depois, D. Afonso Henriques quebrou o prometido e resolveu invadir a Galiza. Como não fora cumprido o que tinha sido acordado, Egas Moniz, acompanhado pela família, deslocou-se a Toledo, apresentando-se perante o monarca com cordas ao pescoço, oferecendo as suas vidas como preço a pagar pela mentira que contara a Afonso VII.
Diz-se que o rei, comovido com tanta honra, o perdoou e mandou em paz, de volta ao Condado. Esta narrativa pode ser apreciada na iconografia do túmulo de Egas Moniz, no Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, na qual surgem três cavaleiros, sendo o suposto aio de D. Afonso Henriques representado de forma mais cuidada e com uma dimensão superior à dos outros dois.
De referir que existe uma lenda baseada na ida deste nobre a Toledo. Segundo testemunhos recolhidos por Alexandre Parafita, em Vila Flor narra-se que Egas Moniz, quando ia a caminho de Toledo, passou por este concelho e descansou por debaixo de um grande carvalho, aproveitando a sua sombra. A partir daí, essa árvore ficou conhecida como o Carvalho de Egas que deu origem, mais tarde, a uma freguesia com o mesmo nome.
Uma outra lenda narra a criação da Terra do Avô, atualmente uma freguesia do concelho de Oliveira do Hospital. Já em idade avançada e com uma imensa fortuna, assente na conquista de territórios para sul, Egas Moniz quis escolher um sucessor. A sua preferência recaiu sobre o seu neto, Pedro Afonso Viegas, que estava enamorado por Dona Urraca Afonso, filha bastarda de D. Afonso Henriques. Apesar do receio que Pedro Afonso Viegas tinha em abordar este assunto com o seu avô, por ela ser filha bastarda, Egas Moniz aprovou este relacionamento. Mas a conversa entre avô e neto não prosseguiu como desejado, porque, entretanto, estavam a verificar-se investidas dos Sarracenos.
Não obstante a sua idade, Egas Moniz aprontou-se para a luta, tendo encontrado a oposição do seu neto, que lhe pediu para não ir. Porém, Egas Moniz recusou tal ideia e prometeu ao neto que, caso ganhassem essa batalha, as terras conquistadas seriam o seu presente de noivado. E assim foi. Após vitória sobre os Sarracenos, o mestre Egas ofereceu como prenda de noivado as terras conquistadas.
Seguidamente, Pedro Afonso Viegas e Dona Urraca casaram numa igreja que D. Afonso Henriques mandara construir especialmente para o efeito e foram viver para o território conquistado. Mas a felicidade do ato foi efémero. Nova investida dos Sarracenos e, mais uma vez, o destemido Egas Moniz volta para a batalha.
No entanto, desta vez, a batalha foi longa e dolorosa, tendo o mestre Egas ficado ferido. Enquanto este se debatia entre a vida e a morte, Pedro Afonso Viegas, secundado por sua esposa, disseram solenemente que a terra conquistada seria conhecida para todo o sempre como a Terra do Avô, em homenagem a Egas Moniz.
Mesmo após a sua morte, em 1146, as lendas continuaram: aquando da transladação dos seus restos mortais verificou-se que as pernas do esqueleto, já desconjuntado, ultrapassavam em altura as pernas de um homem normal, criando-se a lenda de que o mestre Egas seria um fidalgo de estatura invulgar e com uma força gigantesca.